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#191

Eu quero moooooorrer!

- Duração: 00:11:08

Viva a Arte tão desprezada e incompreendida atualmente. Eu quero mooooorrer para não ver a escuridão tomar conta dos novos tempos. Eu quero moooorrer ao ver os velhos tendo suas dignidades mortas e suas velhices desprezadas.

Depois do susto que passei com o coração do meu pai, achei por bem tomar vergonha e fazer um checkup cardiológico.

Tenho me sentido muito cansada e sem fôlego para encarar as lutas por meus sonhos.

O cardiologista, recomendado, me pareceu competente. Por sorte, quis saber um pouco de mim e não demorou a começar a fazer algumas perguntas:

-Sente dor no peito? 

-Tudo dói, respondi.

-Você fuma? 

-Não 

-Bebe? 

-Não 

-Sente falta de ar? Parei para pensar. 

-Costuma desmaiar? Será que os desmaios da minha alma contam? 

E lá estava eu, fazendo eletro enquanto meus pensamentos me levavam de encontro à infância da minha filha.

Quando meus filhos eram pequenos, lembro do absoluto cuidado com tudo que fazia. Tentava mostrar à eles o melhor de mim já que era muito comum vê-los imitando minhas falas e atitudes. Um amor tão profundo que nos torna o espelho do outro, afinal, quem não deseja se parecer com aquele que ama? Pois bem, minha filha Larissa, quando pequena, era extremamente dramática.

Gostava de fingir que a vida era uma apresentação de teatro e quando algo não saía como o planejado ela fingia desmaiar.

Eram desmaios dignos de uma artista que, sem nenhum constrangimento, deixava seu corpinho todo desabar ao chão.

Achava aquilo um tanto estranho e de mau gosto, mas acabava achando graça quando em seguida, ela perguntava: e aí mãe, foi bom o desmaio?

Lembro de uma vez que ela pintou todo o rosto com Hipoglós e no meio daquela pasta branca apenas seus olhinhos pretos, muito alegres, faziam a tal encenação.

Era dramática! Não sei dizer quem ela puxou, mas talvez o meu pai saiba já que ele sempre me assegurou que nasci para ser prima dona de ópera. Porquê será? Coisas de pai, sem fundamento algum já que eu continuo negando, de pés juntos, que sua dramaticidade era uma inocente imitação de algo que ela percebia em mim.

Cristiane T. Pomeranz
Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.